O dólar recuou para R$ 4,82 na última sexta-feira, o menor nível desde março de 2024. Para o consumidor, a notícia é boa: importados ficam mais baratos, a gasolina tende a cair, e a pressão sobre os alimentos processados diminui. Para o exportador, o cenário é outro.

A soja, o milho, a carne bovina — todos precificados em dólar no mercado internacional — geram menos reais quando convertidos. Um produtor que calculou sua safra com o câmbio a R$ 5,20 agora enfrenta uma margem significativamente menor. Não é uma crise, mas é uma compressão real.

O agro sente, mas não sangra

O setor agropecuário brasileiro tem uma vantagem estrutural: custos em reais, receita em dólar. Quando o câmbio cai, a margem comprime, mas raramente entra em colapso — especialmente quando os preços das commodities no mercado externo estão sustentados, como acontece agora com a soja.

"O produtor de soja do Mato Grosso ainda está lucrando. Mas a janela de conforto ficou menor. Se o câmbio cair mais, começamos a ver decisões de plantio sendo revistas para 2027", diz o economista agrícola Paulo Henrique Sá, da Embrapa.

Indústria de calçados: o caso mais delicado

O setor calçadista do Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, é um dos mais expostos à variação cambial. Com 70% da produção destinada à exportação, qualquer apreciação do real corrói a competitividade frente a concorrentes asiáticos que operam com moedas mais fracas.

Associações do setor já pediram ao governo medidas de compensação, como desonerações tributárias. A resposta oficial, até agora, foi de que o câmbio é flutuante e não cabe ao governo intervir para beneficiar setores específicos.

O outro lado da moeda

Enquanto exportadores reclamam, importadores e consumidores comemoram. Eletrônicos, máquinas industriais, insumos farmacêuticos — tudo fica mais barato quando o real se valoriza. E o BC, que monitora a inflação, não vê com maus olhos um câmbio mais apreciado neste momento.

O equilíbrio entre esses interesses é um dos desafios permanentes da política econômica brasileira. Não há câmbio que agrade a todos — e quem diz o contrário está vendendo ilusão.